domingo, 30 de julho de 2023

todos os dias no caminhar dos mesmos trilhos

Esses dias abri o bloco de notas do computador de trabalho e escrevi: "na maior parte dos dias, eu nem percebo que estou nos trilhos." Era o começo do que eu pretendia ser um texto em algum momento. Sabia mais ou menos do que ele falaria e imaginei as outras frases de efeito. O arquivo tá lá, salvo em alguma pasta com um nome genérico tipo aaa.txt. Nunca saiu do papel - ou daquela tela. Agora ele tá aqui, interminável do mesmo jeito, mas mais ou menos sendo desenvolvido. 

A ideia que eu queria passar e os sentimentos que eu queria exprimir eram esses: estou exausta. E estar exausta me empurra aos poucos pro limitar dos trilhos em uma cidade como a que eu nasci, num clima de nevoeiro eterno e chuva sempre a vista. Se eu der mais um passo em frente, vou estar no caminho do trem, de algum trem, vindo de algum lugar. E ele vai me acertar como acertou aquela menina que parou propositalmente na frente dele, e ela virou notícias de jornais e minha avó comentando "ela me lembra tanto você, com um cabelo bem vermelho..." Eu nunca tive cabelo vermelho, mas acho que o que minha avó quis dizer é que a menina tinha uma personalidade que lembrava ela de mim. 

Eu conheço os amigos daquela menina, sei das coisas que ela gostava e dos demônios que enfrentava pelos posts relembrando da sua memória. Ela não é a única. Conheço várias histórias de meninas fantasmas da minha cidade. Meninas que andaram até o limitar dos trilhos. Sempre que penso no quanto quero morrer, penso nelas. E nunca troquei uma palavra sequer com ninguém sobre - sobre como acho que as entendo, como me vejo no mesmo lugar, como quero ser atingida pelo mesmo trem. 

Na maior parte dos dias, eu nem percebo que estou nos trilhos. O que me leva até eles? Para mim eles são atrativos, emanam segurança, me chamam pelo meu nome e imploram pela minha presença. Qual o conforto que eu encontro em me colocar em risco? Acho que o tédio, a monotomia, a vontade de sentir algo, ou de não sentir nada, o cansaço físico e mental que nem doses triplas de antidepressivo aliviam, o pensamento diário de que odeio isso aqui e só quero ir embora. 

Estou nos trilhos porque nada me impede de fazer algo contra mim mesma - não tem ninguém por perto, eu não tenho nada a perder, a vontade de estar neles é corrente e me inunda. E eu quero gargalhar com essa possibilidade. Eu estou nos trilhos, caminho por eles todos os dias, na maior parte das vezes nem tendo consciência disso, sou como uma ímã atraído pelo meu próprio fim. Eu estou esperando o trem, ele só ainda não chegou na minha estação. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário